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domingo, 25 de maio de 2014

Posse

Pode não saber?
Onde pousar o olhar?
Pode?
Não saber como faz
para continuar este segundo?
E essa confusão?
Pode não me fazer um filho?
Posso evitar os ombros
subindo
E ficar a ver o dia
Pela janela
Passar?
Posso?
Lembrar apenas do que me esqueci
e sobreviver neste agora
Ausente de mim
Um pouco
Posso?
Descansar sem morrer
Ir sem ter que partir
Posso dançar sem usar as pernas
E sentir saudade sem doer-me o peito
Posso perguntar
Sem usar interrogação? 

Posso?

Ter medo de tudo isso
E mesmo assim seguir confiante?
Posso desaprender o tempo
E viver ciente
Apenas
Do instante?

Posso
Lacrimejar
- como agora -
E não me achar doente
Nem carente
Pelo o que já tive?

Posso
Deitar-me ao seu lado
E querer dizer o mínimo
Possível?

Por que me dói tanto estar vivo?

Será que é coisa da idade?

26 anos
Quase 27
É já tempo de morrer
Seria tempo de se matar?

Posso?

Aprender a gostar de café frio?
Posso comer doce sem medo do fim?
Posso sonhar com os seus
Os meus
Os nossos dentes 
Caindo
E não pensar em morte?

Eu posso?

Escrever poesia para brindar a tua beleza?

Posso não saber sobre ego
Sobre desejo
Sobre revolução
Eu posso não saber
o início dessa
E de tantas outras canções?

Por que foi que eu fiquei desse jeito tão sem jeito?

Por que foi que um dia eu brinquei de tristeza e me apaixonei pelo verão dor?

Por que aerá que existe em mim este espaço pedindo suspiro
Pedindo-me um instante
Que seja
De abismo

Ai

Eu só queria tomar um café quente
Deitado à rede

Por que me penso tanto?

Meus ombros doem.
E eu continuo a saber
sobre muitas coisas
Que não eu mesmo.

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