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segunda-feira, 12 de novembro de 2012

Conto Crase

Enquanto o café era feito, ele apenas se permitiu restar - imerso no tempo. Pelos cômodos da casa, a poeira se assentava lentamente sobre um tudo. Não quis resistir. Chegara ao limite da força. Era preciso aprender a ceder e, enfim, perder. Pensou. Minha vida parece narrativa já pronta, mas inda não todo divulgada. Refletiu. Achando graça na sua roupa, no seu cabelo, na sua miserável comoção enchendo aquela sala vazia e grande. Longe, o cheiro do café veio lhe brindar a noite. Era final de tarde. Ele foi até a cozinha, apanhou uma caneca branca e despejou o café da jarra de vidro à porcelana. Não. Pensou. Não vai quebrar se eu a colocar na pia fria. E o fez. E não quebrou, a jarra. Consciente, pensou que dessa vez seus dramas seriam todos mais delicados.

Voltou à sala. Caneca na mão. Porcelana. Neblina comiserada saindo do café e ele ali engolindo, em silêncio, a própria vergonha de si mesmo. Olhou novamente aos pés, aos sapatos, olhou de novo para si, para dentro. Como posso? Estranhando a comoção de cada olhar, cada flash do pensamento. Bebeu o café, lento, lento. Nada tinha a ser feito exceto aquele movimento: vagar pela casa tocando na poeira adormecida. Queria, se pudesse, chamar o pó aos céus e fazer da sujeira nova rima. Mas já havia desistido, dias antes, da possibilidade do verbo e da também da possibilidade da carne. Havia desistido das rimas que sempre o puxavam para o mesmo som. O mesmo desenho. Sem sexo. Sem palavras. Sem cigarro. Pensou, outra vez, a enésima só naquele dia: um cigarro pelo amor. Meu deus, um cigarro me confortaria.

Sem conforto. Bebeu o café. Sentiu pena de si próprio e contra isso fraquejou o pulso e fez café se lhe derramar pelo corpo um pouco. Quente. A pele do peito já chegando à barriga se contraiu. Me queimei. Pensou. Aliviado. Percebendo em seguida estar feliz por ter se feito algo em punição a sua fraqueza habitual. Queria fumar. Não poderia. Dissera já tantas vezes que a partir daquela manhã, combinou consigo próprio, se machucaria a cada instante que quisesse ter entre os dentes carne, palavra ou cinza. E se queimou. Deixou a pele se avermelhar, como se fosse quando se faz por amor. Não era. Não dessa vez.


A janela entreaberta. Um silêncio nascendo a noite. A tarde já tinha se ido quando o telefone tocou. Puxou o aparelho do bolso, quase ansioso, escondendo a felicidade de ter sido chamado. Brega. Eu sei. Número desconhecido. Atendeu. Era a cobrança do jornal diário. Ouviu até o fim. Como se naquele fim de tarde, ligasse um amor qualquer querendo apenas partilhar um café, um cigarro, outra coisa qualquer. Ouviu tudo. Até a ligação cair. Guardou o celular no bolso. A camisa molhada já lhe beijava a pele do corpo. Quis morrer, mas estava vivo. Respirando. Olhou um prego na parede e pensou, meu deus, eu ainda assim estou aqui. Quem dera fosse prego. Parado. Sossego fixo. Cadeira sem balanço. Quem dera pudesse saber, pela ferrugem, que a vida me comeu um bocado. Saber estar indo, não como metáfora, não como metonímia. Saber pelo fato. Sem embaraço. Se aproximou da parede. Tão perto. Tão quieto. Viu no prego a precisão daquele instante. Respirou fundo, ainda com pena de si, mas confiante de que quanto mais pena lhe tivesse, mais asas então a levariam de si. Ficou entretido na leve curvatura que algum martelo impaciente teria no prego fabricado. E, quase pequeno, riu um pouquinho.

Pensou furar o olho. Pensou. Sabia-se dramático. No fundo, se disse, quase inaudível, você não tem jeito mais. E apoiou a caneca sobre o chão da sala, abriu a porta e trancando-a com a chave, por fora, se perguntou se o mais que havia dito era mais ou mas. A ciência de si próprio por vezes o assolava. Podia tanto podia tudo que nada em si próprio se multiplicava. Desceu pelo elevador. Pensando em suicídio. Que cafona. Se disse. Tudo isso. Você vai chegar em casa, pensou, e vai escrever o seu dia. E passará por tudo isso. E vai agregar ao acontecimento menos pena e mais coragem. Vai se refazer num outro ser qualquer e vai nele reconhecer suas falhas. Talvez se faça bater frente a algum ponto fino, tal qual o prego enferrujado. Tal qual isso. Abriu a porta do elevador. Pensando em precipício.

O cheiro de café permaneceu consigo. O porteiro me olhou. Por fim, disse-lhe que a cafeteira não voltaria comigo e que, caso ele quisesse, poderia subir e levá-la consigo. Para a esposa. Ou para si próprio. Não importava. Cruzei a porta do prédio antigo. Nunca mais voltei, desde então. Já faz duas horas e eu sinto que posso, definitivamente, estar me permitindo ser outra coisa que não mais isso. Por persistência, sem pena, me tenho vencido. Tentando. Sempre. Mal se faça o amanhecer. Persistindo sobre a poça de café coagulada sobre o estômago coberto a pele sem pelos. Com olho fixo no prego retinto, eu me persigo.

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