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quinta-feira, 15 de dezembro de 2011

FRICÇÃO

Ele bate à porta do sebo ininterruptamente.
Ela espia pela fresta da porta recém-fechada.

Ela – Acabamos de fechar.
Ele – Não, por favor.
Ela – Já passou das seis.
Ele – Mas eu preciso entrar.
Ela – Não estamos aceitando nenhum tipo de cartão.
Ele – Não importa.
Ela – Volte amanhã.
Ele – Por favor. Eu te imploro. Eu preciso de um livro.
Ela – Fala o nome que eu te adianto se tem ou não.
Ele – Me deixa ao menos entrar?

Ela, após certa dúvida, abre a porta.
Ele entra e imediatamente se senta.

Ele – Desculpe o meu jeito. É que eu preciso encontrar esse livro. E eu estava faz mais de uma hora dentro de um ônibus. Os ônibus chacoalham tanto hoje em dia, não?
Ela – Eu prefiro bicicleta.
Ele – Bicicleta?
Ela – Me agrada a possibilidade de ser responsável por alguém que esteja na minha garupa.

Ficam mudos.
Ouve-se a respiração dele.

Ele – Você não poderia me dar um copo de água?
Ela – Qual é o seu nome?
Ele – O meu nome?
Ela – Sim. Qual é?
Ele – Vladimir.
Ela – É nome de personagem?
Ele – Todo nome pode ser nome de personagem.
Ela – Não acho.
Ele – E o seu, qual é?
Ela – É de personagem.
Ele – Diz.
Ela – Ana Raquel.

Ele emudece. Profundo. Apavorado.

Ela – O que foi? É tão ruim assim?
Ele – É bonito. É forte. É bonito.
Ela – Não é bem o que dizem os seus olhos.
Ele – O meu é nome de personagem.
Ela – Não que eu me lembre.
Ele – Esperando Godot.
Ela – Aquela peça?
Ele – É. Tem um personagem que tem o meu nome.
Ela – Vladimir.
Ele – Ana Raquel.
Ela – Eu vou buscar sua água.

Ela sai.
Ele continua sentado ao banco, falando.

Ele – Eu vou te adiantar sobre o livro que eu quero. Bom, o nome tem alguma coisa com a palavra farpa, eu acho. Eu realmente não tenho muita informação. Eu não sei nem dizer o autor, editora, essas coisas. Mas é um livro sobre uma mulher. Sobre uma menina, na verdade, sobre uma jovem mulher.

Ela volta a passos lentos, com um copo transbordando de água.

Ela – Me desculpe, eu sempre encho o copo até quase cair água pra fora.
Ele – Obrigado.
Ela – Não conheço esse seu livro.
Ele – Não tem como consultar no sistema?
Ela – O único sistema disponível aqui é o da minha cabeça. E ele tá meio devagar hoje.
Ele – Então você não sabe?
Ela – Sobre o que é a história?
Ele – Eu não sei ao certo.
Ela – E você tá interessado num livro que não sabe o nome nem o autor e nem sequer sobre o que se trata? Não precisa ter vergonha. Fala.
Ele – Por que você disse isso?
Ela – Acontece de vir gente aqui com vergonha do livro que quer comprar. É que livro é uma coisa tão íntima que pode entregar um sujeito por inteiro. Outro dia, entrou uma mulher que devia ter uns 35 anos. Ela queria um livro do Kundera. Dizia que não sabia o nome. Daí eu mostrei os livros que tinham. E o olho dela brilhou quando eu disse tem A Insustentável Leveza do Ser. Sabe? Quando o íntimo escapole pra fora, sem a nossa autorização? Pois então, foi bem aqui em frente a essa prateleira. Ela pegou o livro na mão e foi como se a história toda nela tivesse se atualizado. Sabe quando isso acontece? Quando o livro está faz anos ali naquela mesma prateleira, sentindo por extensão os toques nos livros vizinhos? Sendo sempre desapertado e apertado novamente. Sabe como é? Nesse dia o livro respirou na mão dela. E olha que ela tremia levemente. Eu na mesma hora voltei pra trás do balcão e fiquei pensando: será que esse livro foi o único amor da vida dela?
Ele – Ela tem seu nome.
Ela – Eu não sei.
Ele – Não foi uma pergunta.
Ela – Se ela tem o meu nome?
Ele – A personagem desse livro que eu quero. Ela tem o seu nome.
Ela – Se houvesse algum livro aqui dentro com uma personagem chamada Ana Raquel, eu saberia.
Ele – Não fale o nome.
Ela – Mas é o meu nome.
Ele – É um livro recente.
Ela – Perdão. Não o temos.
Ele – É de um jovem autor. Talvez da nossa idade.
Ela – Vladimir.

Ele não responde.

Ela – Ei você.
Ele – O que foi?
Ela – Que Ana Raquel é essa que não sou eu nem uma personagem?

Ele emudece.

Ela – Que história é essa que você inventou pra amenizar a sua realidade? Que personagem é esse que você tá inventando e que te tira de mim quando na verdade, tudo isso era pretexto apenas para estamos juntos?

Ele mudo termina o copo de água em silêncio.

Ela – Hoje seus olhos estão tristes. Eles falam sem você querer. Eu tô acostumada com isso. Tem gente que quer ler no livro uma forma de dar fim ao que está vivendo.
Ele – Não tenha tanta certeza disso.
Ela – Quem você perdeu que agora precisa suprir nesse romance que sequer existe?
Ele – Não quer dizer dar fim, nem suprir. Eu só queria saber como lidar com isto, com esse buraco, com essa fenda, da mesma forma como fazem os personagens de um romance qualquer. Todos eles sabem. O Vladimir, você se lembra, ele fica dois atos esperando um tal de Godot que não vem. Ele fica encontrando pretexto para continuar vivo quando tudo ao seu redor o convida a morrer, a desistir. Como ele consegue? Ser tão maravilhoso? Como ele consegue durar tanto tempo?
Ela – Ele tem um amigo ao lado dele. É só isso. Da mesma forma que você tem a mim.
Ele – O meu amigo hoje escolheu o pior nome que poderia ter escolhido para a nossa brincadeira.
Ela – Esqueça. Foi um nome qualquer. Aleatório.
Ele – Não é um nome qualquer.
Ela – Era o que talvez estivesse escrito no seu olhar na hora que você entrou. Não sou eu. É só um jogo.
Ele – Uma ficção, você costuma dizer. Mas uma ficção que consome da mesma forma como a minha amiga que tem esse mesmo nome. E não é estranho que eu venha em busca de ti para tentar sarar este horror que ela criou dentro de mim faz poucas semanas?
Ela – Eu não te entendo. Você quer parar? O que foi com você hoje? A gente nunca gastou tanto tempo falando. Que negócio é esse de horror?

Ele emudece, sôfrego.
Ela o mira, persistente.

Ela – Você é tão engraçado. Alguns escritores, quando não sabem como fazer um personagem responder uma pergunta, escolhem mantê-lo mudo. Como se em silêncio ele fosse incapaz de ser interpretado. Como se em silêncio ele estivesse protegido. É o que muitos escritores fazem, mas, na maioria das vezes eles se esquecem de nos situar sobre os olhos. O problema não é a fala, você percebe? É pelos olhos que tudo escapole.
Ele – Eu lembrei um trecho do livro. A personagem que tem o seu nome fala assim num dado instante. Acho que pra um amigo que está distante: Que farpa foi essa que fincou no seu pé? Eu li de novo e de novo e chorei por dentro. Porque aquela personagem não está nada bem. Ao menos não naquele momento. Será que depois da "grande sacada" do final Ela melhorou? Ficou aliviada por ter desabafado e sacado da sacada suas piores armas, farpas e angústias? Me conta? Conta o final da história pra uma amiga espectadora fã e voyeur de almas? Conta pra mim como você tá e por que precisou escrever isso? Quero muito saber que café que andou sendo derramado, que morango lembra sangue, que sacada se faz tão alta e tentadora. Me conta? Que gravidade se faz tão grave?
Ela – Me conta? Qual é o final dessa história que você enviou a ela?
Ele – O final da minha história é que essa minha amiga pra quem eu enviei essa história morreu da mesma forma como esta personagem que um dia eu tive a brilhante idéia de inventar.
Ela – Não é culpa sua.
Ele – Ela leu o meu conto, Duda. Ela morreu da mesma forma, no mesmo dia, no horário exato ao da personagem. Numa manhã de um domingo qualquer, eu escrevi esse conto idiota no qual uma menina se matava, depois de inúmeras tentativas frustradas. E no domingo retrasado esse meu conto desnecessário ganhou vida, sabe?
Ela – É só uma triste coincidência, Vladimir. Eu não a conhecia. Mas é só uma triste coincidência.
Ele – E ainda que seja, como eu viro a página?
Ela – Ora, você veio até um sebo, eu quero dizer, o que não faltam aqui são páginas a serem viradas...
Ele – Mas, fora isso. Fora os livros. As mortes. Fora a velocidade do ônibus correndo solto no meio da cidade. Fora a massagem que tem sido brincar contigo nessas ficções no fim de cada tarde... Eu sinto tanto a sua falta. Concreta. Falta suprema que não se resolve. Que vem no meio da noite e que desorienta, sabe?
Ela – Eu sei. E sei também que todas as nossas ficções terminam numa trepa dentro de um sebo sujo no horário pós-comercial nesta mesma cidade movimentada.
Ele – Eu detesto a palavra trepa.
Ela – Não sou eu quem a fala. É minha personagem do dia.
Ele – Eu não gosto da sua personagem do dia.
Ela – Você quase ficou para fora hoje, não fosse a generosidade dela.
Ele – E você quase ficou para dentro hoje. Sozinha, não fosse eu.
Ela – Eu gosto de Vladimir.
Ele – Então seja essa minha amiga e faça algo agora comigo, capaz de me distrair do tempo de me aliviar as horas capaz de me preencher que seja só por um momento.
Ela – Eu li uma peça de teatro essa semana e me lembrei de nós dois... Eu queria testar. É sobre um casal que faz o ato em si só que por meio de palavras. Apenas.
Ele – Como se tivesse uma platéia ao nosso redor e não pudéssemos ficar nus.
Ela – Como se houvesse um rifle apontado para o seu peito e outro para o meu. Como se o nosso encontro fosse o dedo a escorregar sobre os gatilhos. O nosso amor como o estopim para o fim de todas as coisas.
Ele – Eu começo.
Ela – Direto.
Ele – Reto.
Ela – No leito.
Ele – Peito.
Ela – No colo.
Ele – Seguro.
Ela – Toca.
Ele – A mão.
Ela – Denta.
Ele – O músculo.
Ela – Nu.
Ele – Deixa.
Ela – Lá.
Ele – Deixa.
Ela – Aqui.
Ele – Beija.
Ela – Ponto.
Ele – Trepido.
Ela – Contínuo.
Ele – Intervém.
Ela – Errando.
Ele – Mãos.
Ela – Estouro.
Ele – Festa.
Ela – Assopra.
Ele – Beijo.
Ela – Bolha.
Ele – Beija.
Ela – Corta.
Ele – Volta.
Ela – Segura.
Ele – Traz.
Ela – Fica.
Ele – Estaca.
Ela – Estaca.
Ele – Estaca.
Ela – Me beija.
Ele – De novo.
Ela – Vaza.
Ele – Sempre.
Ela – Mais.
Ele – Goteja.
Ela – Sempre.
Ele – Culpa.
Ela – Amor.
Ele – Dormente.
Ela – Aperta.
Ele – O meu.
Ela – O seu.
Ele – Os dois.
Ela – Os dois.
Ele – Parede.
Ela – Dente.
Ele – Bolso.
Ela – Peito.
Ele – Latente.
Ela – Calor.
Ele – Não pode.
Ela – Derreto.
Ele – Quente.
Ela – Santo.
Ele – Poça.
Ela – Crente.
Ele – Aqui.
Ela – Na frente.
Ele – Embora.
Ela – Como.
Ele – Fala.
Ela – Eu falo.
Ela – Aéreo.
Ele – Palavras demais.
Ela – Falar.
Ele – Beijar.
Ela – Deixa.
Ele – Beija.
Ela – Enfrenta.
Ele – Seguro.
Ela – Mordo.
Ele – Controla.
Ela – Extra.
Ele – Meu.
Ela – Calor.
Ele – Toca.
Ela – Segura.
Ele – Coloca.
Ela – Peito.
Ele – Encosta.
Ela – Chora.
Ele – Vergonha.
Ela – Olha.
Ele – Foda-se.
Ela – Foda.
Ele – Fodam-se.
Ela – Agora.
Ele – Amanhã.
Ela – Celular.
Ele – Toma.
Ela – Devolve.
Ele – Deus.
Ela – Sorte.
Ele – Sei.
Ela – Toma.
Ele – Passa.
Ela – O mundo.
Ele – Vendo.
Ela – Vento.
Ele – Põe.
Ela – Deixa.
Ele – A mão.
Ela – O peito.
Ele – A pele.
Ela – O pêlo.
Ele – Não vejo.
Ela – Chapado.
Ele – Problema.
Ela – Outro beijo.
Ele – Doce.
Ela – Capaz.
Ele – Possível.
Ela – Tenaz.
Ele – Se dura.
Ela – Desfaz.
Ele – Acode.
Ela – Acende.
Ele – Fica.
Ela – Persiste.
Ele – Tatuagem.
Ela – Feito rima.
Ele – Conseguimos.
Ela – Conseguimos.
Ele – Há quem diga.
Ela – Há quem diga.

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Um comentário:

kellyezaki disse...

precisamos ler juntos. :)
lembra?

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