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sexta-feira, 30 de abril de 2010

E Instaura a Rima.

Porque depois de você,

cabelos ruivos rimam só contigo
prédios altos também me levam a isso
e tem você presa em objetos
você rimando a cada verso meu
e hoje são tantos
feitos para você…

Instaura a rima porque se olho o céu vejo primeiro você.

E depois você me fica nos olhos copiada
e a sacola voando entre os prédios da cidade é sobre ti
a nota no jornal sobre outro caso se inspira nisso
e se me olham meio entristecido eu rimo você
outra vez sempre que falam a palavra destino
dentro de mim você grita como fosse rima terminada em ar
rima do verbo amar
rima do verbo partir
rima do verbo lançar

Percebe como a morte instaura a rima em certos versos
ou melhor, em certas esquinas
tornando a fuga incapaz
Percebe?

Mesmo em versos brancos
pálidos de solidão
mesmo assim eu neles me olho
e recebo você de súbito
transfigurada.

A morte é a rima mais popular
pois não bastasse rimar com tudo
ainda tranquila rima com o nada.

quinta-feira, 29 de abril de 2010

A Morte Instaura a Poesia.

Você que acessa esse blog, por favor, não vá achar que o autor está depressivo ou tomado por certa fixação sobre a morte. Isso seria verdadeiro, mas o reconhecimento ameniza a potência da busca. Sobre finitude, a busca é essa. Pensar sobre ela, desenhar a partir e flertar com as surpresas que nascem desse encontro, mal tenha se rompido a manhã. E desde então, fugir do fim, fugir da morte, fugir do óbvio. Para ser inevitavelmente tragado de volta. Como tivesse tudo isso sido recreio, mas agora não, agora é preciso olhar para o fim a morte e enfim aceitar que sim, a finitude está na morte.

Mas, e sempre um mas haverá, seguindo pela cidade dentro de um ônibus, pesando o olhar dentro de um óculos prendendo as lágrimas, eu comecei a pensar que o fim é tudo que não apenas o fim. Pensando sobre como o fim não termina nada, apenas muda a forma, o meio, a linguagem. Você que um dia foi atirada, que se tirou de mim, morrendo a si mesma você não instaurou o fim, mas fez abertura infinita e maior que nossas próprias vidas. Você naquele dia ao se morrer instaurava com sua morte a Poesia.

Gastarei os últimos dias deste mês investigando rapidamente as figuras de linguagem sob a ótica da poesia que instaura a morte. Nenhuma metáfora é segura, nem eufemismo, nem mesmo eclipses, aliterações, hipérboles… Tudo jaz agora resignificado, porque o fim é outro, o fim é outra coisa que não unicamente ponto final. Fim tem asas, turbina, não cabe em porta-retrato. Isso é nítido? Seu esboço é possível?

Quem morre instaura em quem fica a sua constância, não mais pelo encontro corpo-retina. Não acham? Quem morre instaura via poesia a eternidade, via metáfora se multiplica em toda parte. Via aliteração, faz morte com medo martelo mentira mito memória mãe mão e moletom. O fim se multiplica em poesia e por isso sobrevive, porque existe além de si mesmo. Eterniza-se concreto via inconcretude. O fim é irredutível como certeza de que não haverá o retorno do que se foi, mas é pela esperança constante e contida em versos que sua irredutibilidade é amenizada, e de eterno dispersamos o luto daquilo que se foi multiplicando sua desgraça. A morte nos tira um corpo mas nos devolve o seu mistério, a sua aura.

quarta-feira, 28 de abril de 2010

do verbo e agora, josé?

o telefone tocou no meio da madrugada. era um familiar próximo dizendo que outro familiar, mais distante, havia morrido. como? meus olhos meio que nem sei se abriram, mas respiraram perplexos. como isso? gente. gente. e uma série infinita de lamentos. ok. ok. desliguei. deitei sobre o colchão jogado no centro da sala. senti o vento frio da noite me cobrindo por inteiro e penso agora, fim concreto. sem teatro, sem revolta, sem saída. fim do verbo conjugado terminar. do verbo ir sem mais voltar. do verbo se vira ai quem fica. do verbo e agora, josé?

pensarei em você. hoje. nas memórias mais antigas, de quando a vi pela última vez a qual já nem lembro mais. eu cresci, eu sumi. você seguiu e agora se foi. que irônico que em nossos encontros você tenha deixado em mim um esboço de plena atividade. sua vida se consome porque me parece, eu intuo, eu sinto, eu sei, tinhas um vasto sorriso. e ainda tem. ainda terá. aqui. pleno. seguro. protegido. feito eterno, assim lembrança.

não mais.

terça-feira, 27 de abril de 2010

casa.

esboço para futura dramaturgia.

eu cismei com isso de casa. quero que a próxima peça seja sobre ela. quero que a casa seja não somente o espaço mas sobretudo a personagem. seja o pote dentro do qual se conversam os seres, os ingredientes. a casa feita de chãos paredes e portas. casa com janelas escadas e assoalhos. casa cheia de medos canteiros e quinas dolorosas. colchões travesseiros medicamentos e torneiras gotejando. mesa vasta e larga. mesa de video quebradiça. prateleiras empoeiradas. esconderijos e mistérios. gás. água. terra. piscina repleta de folhas e lodo. quintal. marca de óleo do carro já saído. garagem vazia. familiares dispersos. o que estarão fazendo que não se encontram? será que veremos o todo ou somente o separado? será que veremos todos os cômodos ao mesmo tempo e indo um a um, como num jogo de teatro, um a um cada familiar vai até o centro da sala, senta na mesa, espera um instante e volta para seu refúgio. volta, no exato instante em que outro abre a sua porta e vai até o centro da sala, senta, espera e volta. no exato instante que outro sairá… numa coreografia do desencontro marcada pelo íntimo lacrado/desesperado. marcada pelo diálogo com o relevo com a arquitetura diálogo com os móveis animais aranhas e quadros. casa marcada pelo silêncio falsificado. murmurros foragidos nas cortinas, confundidos na profusão de objetos da sala. na pilha de jornais acumulados. segredos tentando voz quando a goteira da cozinha e do lavabo principal os silenciam, novamente. tudo tentando acontecer quando na verdade, a casa age maior impedindo aquele encontro de acontecer. e por que impediria? que motivo supor para a casa os impedir de se encontrar? talvez, eu penso, a casa retarde o encontro dos familiares porque compreenda que a partir dele a noção de família se desfacelará. será? evitar a reunião de família para não ter que evitar a noção de família? noção de família vencida. pois a casa não sabe, porque se ocupa coordenando entradas e saídas, a casa se ocupa controlando o jogo, então ela não sabe, ela não percebe o que cada um anda fazendo dentro do seu silêncio forçoso. ela não sabe, mas cada um arma da sua forma a sua fuga. cada um pensa sua morte. cada um tentará em breve sua sorte. em ações que não saberia prever, mas que intuo, serão esquisitas como é esquisito essa noção de família e amor que fizemos nascer. a casa não sabe. mas seus integrantes pelo silêncio armam sua implosão. o que virá depois? não restará tijolo sobre tijolo. eu acredito.

vinho mesclado ao cinza com inscrições pretas.

pensar sobre o fim é gastar tempo olhando para o que passou. não quer dizer que acabou. talvez seja apenas a percepção de que não volta mais. lembro então do meu primeiro all star. sugiro a cor. encontro uma foto antiga e a comprovo. hoje ele me parece mais especial do que foi. talvez porque eu sei – hoje eu sei – que nunca mais o terei de volta. ele estará vivo? nos pés de alguma criança? não. não me parece possível. naquela mesma tarde eu parado numa praia. não me lembro exatamente. mas estávamos juntos, a família. num carro. suspeito que fosse a belina do meu avó. que era grande e cabia a família quase inteira. paramos na praia não sei por qual motivo, mas estava frio, porque eu usava além do all star vinho, um conjunto de moletom. minha mãe adorava me dar conjuntos de moletom. e eu gostava de usá-los. era também vinho, mas mesclado com cinza e algumas inscrições acredito que pretas. eu com os cabelos grandes, como hoje. porém, não como hoje, naquela época penteados. pela minha mãe. acho que essa tarefa também já foi feita por alguma das duas irmãs. então. eu ali na praia parado. olhando não sei para onde. mas fotografado. hoje tudo aquilo acabou. e conservo eu apenas o instante mexido, posto seja lembrado. na foto tudo estático permanece como o tempo não tivesse passado. foi fim consumado. acabou. ser menino outra vez, não mais. não mesmo. dá saudade. dá leve desespero. olhar hoje para mim e me reconhecer alguém que precisa andar só e confiante em si o tempo inteiro. dá saudade da fralda e da mamadeira. da saudade de brincar querer ser independente, mas voltar para o calor do abraço materno ciente de que em alguma hora do dia – ou do anoitecer – é preciso pôr fim ao jogo.

segunda-feira, 26 de abril de 2010

as coisas viraram enciclopédia muito cedo,

a sua poesia nasce que horas?
todo dia.
e quando?
no limite entre acordar e dormir.
preciso assim?
mais impreciso impossível.
e dói?
você quer saber se dói?
é.

dói.
mesmo?
não. mas dói. ela, como dizer, nasce gritando.

gritando pela voz?
gritando pelo corpo. entende?
não. seria mais fácil ver.
olhe para mim.
sim. é você.
ontem a minha irmã me disse que o fim…
que fim?


qualquer fim. ela disse que o fim lhe dá nostalgia.
sabe o que é?

nostalgia?
o fim. sabe o que é?
todo mundo sabe. quer dizer, todos já viveram algum fim.
e então?
acho que o fim é o ponto de partida…
hum…

é sério. acho que é quando a nostalgia começa.
você não precisa articular conceitos e criar uma narrativa.
mas eu quero.
então vá lá.
vala. você quis intuir?
não. eu apenas disse que fizesse.
o quê?


você está perplexado.
eu?!
é. nada pode escapar da sua capacidade de definição. relaxa.
eu não posso.
por quê?
porque eu queria que ela escutasse
. que assim como eu lembrasse com detalhes o dia em que foi dormir para sempre. eu pergunto por que ela não pode acordar. eu pergunto usando porquês. mas ela não volta. não vem. não fala nada. está em algum lugar que eu não posso encontrar.

daí sempre que eu acordo é essa busca que não acaba. que em mim não quer cessar. sempre essa busca. tentando vê-la em todo e qualquer lugar. vê-la nas músicas, nos

livros, por entre as coisas do quarto. neste silêncio. neste diálogo inventado contigo, que sequer existe. posto você seja um personagem inventado para conversar comigo isso que não consigo deixar morrer. o amor pelo o que já se foi. o amor como forma-fixa do incompreender. ela não vai voltar. mas e se eu ficar nisso investido? durarei mais anos do que duraria a princípio? serei mais confiante do que agora e an

tes? quantos poemas mais virei a escrever? desculpa. eu calei você. e você nem sequer é um personagem. eu queria acreditar.

pode falar. você está doendo, é isso.

não é dor. é incompreensão.

eu para mim já tinha concluído que você havia entendido tudo.

tudo o quê?


pára de perguntar. você entendeu que o caminho é esse. para rimar: o caminho leva ao fim.
não rimou.
enfim, deixa.
não, por favor.
a sua poesia nasceu errada.
não, fica comigo. conversa.

ameniza este dia. fica.

imagina. o dia te chama. vai e chora com ele. vai e brinca. sem cobrança, ok?

sem cobranças.

ok?


não faz sentido.
isso foi uma afirmação. não foi pergunta. sequer protesto ou reclamação. viste? você está amadurecendo. olha para esse fim, pequeno, e se delicie nele. o caminho é mesmo o do meio. o fim é mesmo outro princípio.

a questão é que as coisas viraram enciclopédia muito cedo, lá nos princípios. e todo mundo sofre porque o gabarito não bate. sendo assim, não sofra. escreva outra bíblia. crie outras verdades.

nós humanos criamos tudo. criamos formas mil para a mediocridade. criamos modelos inúmeros de prosperidade. e por que não mais mentiras por que não outras verdades? a poesia nasce a todo segundo desde que se olhe para este outro mundo. qual outro mundo você me perguntaria. eu te digo. esse mesmo. esse nosso outro mundo. que se faz outro toda vez que o lançamos o olhar. que nunca é o mesmo. que sempre é outro.

sábado, 24 de abril de 2010

tudo o que eu vejo.

eu vejo
em mim recebo o inevitável
se parte de mim ou se em mim fica
não cabe dizer.
resta o corpo tentado.

vejo o inevitável que vai
e volta sem anunciar chegada
e volve sobre mim certezas
antes sequer especuladas,
mas persisto
indo afetado ao cerne da construção:

natureza propensa ao esquecimento
formas breves que se perdem mesmo ao tempo
mas cabe dizer
amáveis. recipientes para inevitáveis outros destinos
na arquitetura impressos.

aos poucos, percebo
vejo o que já não há
amo o que já não tenho
sofro o que não entendo

mas, claro
conservo na pele a lição ressequida.

o tudo que eu vejo não é bem como
não é sequer como eu o especularia
mas,
e há sempre um mas,

é o que traga os olhos por sobre o mundo.

por hoje basta. por hoje,
apenas.

sexta-feira, 23 de abril de 2010

quando cessar?...

poesia juvenil desorientada
olha para mim que te cria e diz
quando estarás finda, acabada?

não aguento mais você
nossa caso é o vício ou a morte
mas como não quero findar neste ato
persisto triste viciado
fazendo malabarismo com a aridez
de suas partes,

me comove, vai
me desestabiliza
pára de ser em você essa minha cara
pára de repetir a minha rima
inferno!

nos apaixonamos, foi isso?
responda!
nos apaixonamos e isso é a merda do século.
depender de ti para olhar meu dia e dizer

que solene

belo

transtorno.

 

NÃO!

eu não quero ser repetido
eu quero repetidos não seres
metáforas indecifráveis
não serás minha solução
pois desde já eu não tenho cura.

viste?

não perca seu tempo desenhando formas amenas
desenhando escudos e adagas recicláveis
aproveita o meu corpo
e desenha feito fosse asfalto
o grito dos pneus acelerados
desenha o corpo impresso do bicho atropelado
desenha a comunhão do calor com a escuridão

vem, eu te peço
e me diga todo ao contrário

sem mais doçura

sem mais consenso
entre a forma
e o conteúdo.

e tudo acabou. e tudo fugiu.

mas sempre nos resta algo para dar indícios da existência. não?

sobra um corte na pele
sobra um sangue que não coagula
sobra uma roupa que não é sua
sobra uma memória que volta ao se ver o lugar
sobra um lugar, e outro mais, e mais um
sobra um travesseiro
sobra uma caneca de café esfriada
sobra uma penca de sonhos morridos
sobra livro sobre migalhas sobram assunto

quando se acaba alguma coisa do gênero eterno
é porque o mundo está agindo em sua sinceridade

eternidade foi uma coisa que inventaram
para nos sentirmos pequenos
famintos
e carentes de uma mão
que esmaga
de uma mão divina
que nem se toca ou vê

que nem se toca

mas que controla
segura
instaura
e entorta.

quarta-feira, 21 de abril de 2010

crack on the wall.

E PARA QUE
TANTOS FILHOS
SE NENHUM DELES
LHE ESTENDE
A MÃO AO ROSTO
E DIZ:
PAI, O QUE FOI?
O SENHOR QUER
CONVERSAR?

E PARA QUE
TANTOS FILHOS?

SE NÃO SINTO O
SUOR O CALOR
O RUBOR DE
SUAS RESPIRAÇÕES
OPRESSAS.

PARA QUÊ?

Num ponto de ônibus qualquer.

Pelo prazer do jogo eu não vou parar. Disse a si mesma, ali parada, inerte, estática. Fico. Persisto no decorrer dos segundos e provo a ele e a mim mesma que sou alguém capaz de durar. De ser dura. De ser fato, pedra, coisa toda invevitavelmente concreta. As palavras saltam de mim com extrema facilidade. Achava isso bom. Hoje penso que saltam de mim porque temem ficar mais que o tempo. Temem ser eternidade quando em mim a noção de eterno dorme solta ao relento, é desde já impossíbilidade, eu não tenho freio, eu não tenho embate. Somente os que quero. Ele permanece. Funciona a psicologia reversa. Eu fico fazendo cara de autosuficiente e nisso ele se desespera e quer provar a mim e a ele mesmo que é capaz de me tragar. E é, poxa. Como somos complicados! Eu tenho medo em dizer que ele é isso para mim, porque e depois, e quando ele quiser partir, como eu fico? Eu fico parada, estática, sem ar, plantada com raíz, eu fico desesperada. Como agora. Só que de verdade. O coração já se terá deitado. As pernas terão emudecido. Os pelos parado de cantar. Tudo infeliz e disforme. Sem identidade. Faz isso. Vem de surpresa e me corrempe pelo soluço. Vem trazendo o inevitável que eu prometo, ante a ele eu sucumbo e te deixo ver, como em meus olhos – intimo – há uma força querendo formar. Daí ele avançou, pegou um ônibus qualquer eu nem quis olhar. Olhar o destino ao qual não se se pode atar? Não. Fiquei além de muda, cega. Gritando dentro de mim essa imbecilidade do jogo. Não quero mais brincar. Nem ser criança. Eu quero durar. Contigo. Quero fazer casa abrigo. Te abandonar. Para voltar. Te ver partir. Para varrer o chão e te ver chegar. É possível? Eu aqui parada – onde estou? – já não sei mais o valor de tanto afirmar de tanto perguntar. É que dói, poxa. Mais com você fora de mim do que dentro. Volta. A gente organiza o coreto. A gente começa sobre os clichês. Prometo a modernidade no período pós-óbvio-amante. Tudo assim feijão com arroz. Depois permitiremos ao vento trazer nuances. Mas por agora. Eu quero-o óbvio. Ela se disse, e sequer chorou, sequer moveu, sequer ficou. Os pés moviam-se para dentro da terra. E ao término daquela tarde já noite, o cimentado sobre o qual ela aguardou o ônibus o moço o destino o seu alvo, bom, eu devo dizer, o cimento rachou e por dentro dele escorreu, alta entristecida, aquela árvore mulher menina. Com os pés raíz avançando ao mundo e puxando-lhe energia alguma para seguir. Está em algum ponto desses tantos, esperando, esperando, rendendo-me frutos que faço questão de aqui expor, de aqui experimentar. Ela existe. E está tão viva, quanto morta. Ela é resistência, é em si mesma o terror e a obra.

segunda-feira, 19 de abril de 2010

ah consciência

a coisa mais linda que tive na vida
veio segundos depois de te ver partindo
foi meu corpo se ajeitando em meio ao tempo
preparando-se de antemão
para se reconhecer corpo já ido
mordido partido deglutido corpo

sem rumo sem destino ou rima

a coisa mais linda foi me ver nisso indo
e perceber como as partes se deram pouso
como as partes se juntaram e aos pedaços
assumiram a condição do ser
resto ser
que espera putrefando alguma mão
qualquer que seja
que venha ao corpo
desperto

sim, a mais linda coisa veio depois de ti

veio pelo meu olhar lançado sobre mim
veio na vontade de chorar e não conseguir
veio na vontade de firmar e se ver ruir

assim
como quem morre
porque a vida se revelou sem gosto
como quem morre um pouco
para alterar o rumo do sangue
e fazer serpentina celular
de leucócitos
e hemoglobinas
de peles vertendo pelos
e fazendo em meio-hemorragia

coagulação
processo individual em que se beijam
num mesmo corpo
suas partes já partidas clamando união.

para não se esquecer do barro.

sobre tudo que é raça e jaz hoje dissipada
sobre as cores das peles hoje esquecidas
estupradas
traz o vento da noite a poesia
e reivindica existência

choca o chão os pés dormentes
batem-se as mãos repetidas
e carentes
se morreram não por querer
morreram-se fazendo do sangue tinta
e vindo a nós pelo tempo inscrever

fica permanece dura
pode usar meu corpo
ele é duro, mas cede ao toque
cede ao arco à flexa cede ao barro
ao toque, sim

faça sua história correr veloz logo aqui
e mais aqui outra vez agora
ganha sobre meu corpo sua eternidade
e não vá embora

não vá embora,

permaneça imberbe sob forma natural oh poesia

Acabou Chorare

E aqui resta o pão
a vela apagando podendo se quiser
não quero
ser chama

Restam coisas sobre a mesa
e sob a cama sequer poeira
Tudo limpo assim como quis
tudo explícito

Faz-se agora pó em rio
vai tingindo a água seu pranto férvido
E convertendo secura
em brilho

Sonho
tomado de mim por mim mesmo
sigo contemplando este espaço vasto
espaço íntimo, no qual já não choras

Porque
É parte
deste todo
Sofre o segundo

feito fosse semente na terra soterrada
feito fosse pólen no ar perdido
feito gota de suor com beijo secada
feito fosse assim poesia

plena passagem em meio à desgraça.

domingo, 18 de abril de 2010

Ovelho e Rebanho.

é que não tem nada
apenas sons de martelos
nem há martelo
há nada apenas
apenas nada.

assusta sim eu sei
você dorme e acorda
e a incompreensão persiste
se me perguntou onde foi
não importa porque antes de onde
sobrevive o fato
duro como pedra
de que errei.

erro de novo, portanto, agora
sem saber identificar onde fiquei
em que parte me perdi
sobre o quê exatamente eu gastei
a energia
o meu amor
a potência divina
eu digo
de vida.

não sei.
durmo perfurando o sono com pausas nas quais os olhos doem por não conseguir não ver.

o mundo vai me chamando de volta
e eu preso nessa investida do se abster
do não se permitir mais
não mais
ficar resvalando em cada gota
essa essencialidade de vida
que em mim extravaza.

sou mais do que tenho aqui exposto.
sou logo menos do que mostro.
sou mais louro
menos cinza
sou mais negro
menos mulher
menos rimas
eu sou
inevitavelmente
ser em transtornação.

queria não ter escrito nada disso
mas meio que é essa minha condição:
reconhecer e praticar a classificação imposta por mãos divinas:
ser ontem e hoje e amanhã
a ovelha negra

que sofre e goza
por sobre o consenso.

quarta-feira, 14 de abril de 2010

término

acabou.

mandei um e-mail.

começou.

com outro destinatário.

simples assim.

o fim

no final das contas

ou mesmo em seus inícios

é só outro começo.

fica a dica.

domingo, 11 de abril de 2010

o amor é o fim.

da ordem das tias.
da ordem a única irmã que não teve filho.
da ordem não por isso tenho menos amor para dar.
da ordem eu tenho meus móveis minhas coisas meus gostos.
da ordem eu sou capaz de educar coser e amar.
da ordem eu não sou virgem por não ter marido.
da ordem eu sou tia mas tenho casa própria.
da ordem eu sou tia e não infeliz.
da ordem meus filhos são todos aqueles que foram maltratados
meus filhos são todos os que não foram devidamente amados
eu os coloco dentro da minha casa
e os tiro a roupa
e os faço se banhar
depois eu costuro suas partes
e tendo a ensinar de novo como é mesmo que se faz para ao caminhar
conseguir andar.

nem sempre se move ao se movimentar.

tem uma doença ameaçando a multidão.

é que todo mundo corre e não sai do lugar
todo mundo de mãos invisivelmente dadas
correndo só na escuridão dos dias-avenida

tem uma doença que só tia é capaz de ver
porque tia não sofre dessa psicologia do pai
da castração
tia não curte édipo
tia dança o absurdo
e coloca a prole para dormir cedo
tia é limite
limite é amor, não fim

a que horas vai chegar?

tarde.

tarde que horas?

depois de meia-noite.

bom, quero você 23h30 batendo nessa porta.

não!

sim, mais uma vez: 23h30.

você não é minha mãe.

por isso mesmo. toma esse casaco. divirta-se. 23h30.

sexta-feira, 9 de abril de 2010

ou a razão pela qual você se foi.

ANA – Quando eu penso no seu motivo, eu já não sei se é apenas um ou se nem mesmo existiu alguma coisa. É difícil. Quem suspeitaria? Você se foi e deixou mais presença do que sempre teve. Desculpe. Mas se antes eu conseguia não pensar em você durante um dia ou por algumas horas, que seja, isso era apenas porque não havia em mim a noção do que é perder. Hoje eu tenho. Hoje eu sou isso. Hoje eu entendo. Não aceito. Quer dizer, eu aceito. Mas não entendo. E nem aguento mais procurar motivos. Não consigo acreditar na sua coragem. Partir assim, como quem acha que pode voar. Se jogando de uma altura de cinema. Você se jogou de uma altura que nem tinha sido inventada! Eu hoje olho para você parado naquele tempo nosso. E no fundo você sempre se achou vanguarda demais. Percebe? Que eu nem choro mais. Ai, sequei, sinceramente. Você virou prosa. Você no máximo hoje pode ser poesia. Acabou aquela dor. Mesmo que noutro dia eu tenha desatado a chorar. Acontece. Mas no máximo, hoje, você é rima, recreio de verbos e adjetivos e metáforas e linhas, tudo tentando desenhar um motivo. Que não veio. Não vem. Ainda não. Sabe? Eu estou esquecendo de tudo o que vivemos juntos. Algumas coisas muito certeiras, muito pequenas, são estas que ficam. Feito memória. Tenho medo de te esquecer. E de um dia ver a sua história, que é minha, ver a nossa história na tv, ganhando audiência e não minha devoção. É isso. Eu não esperava, mas você virou a religião que eu nunca tive. Chorei tanto por sobre o seu corpo. Chorei tanto. Que as pessoas olhando começaram a achar que meu choro era encenação. Que engraçado. Na verdade, a gente, o ser humano, eu quero dizer, a gente é tudo bobo. As nossas tragédias não duram muito tempo. Sempre tem que ter um comercial de margarina. Tudo acaba mesmo em pizza. Isso é bom. Quer dizer, me desculpe, não é deboche, mas é que passou o tempo, passou tanta coisa e você continuou estático, morto. Sabe? Eu quis apenas dizer que enfim… Você morreu, é isso.

Escorre da narina uma gota.

ANA – Lembra quando no cinema escorreu sangue do seu nariz? Lembrei disso agora. Estou com sono. Você não veio. Toda noite isso. Eu sento e te escrevo. Amanhã vou imprimir e me sentar sobre o seu túmulo e ler tudo isso. Quem sabe você me escuta? Quem sabe? Ninguém sabe. Eu não sei. Me diz uma coisa, vai! Qualquer coisa! De qualquer jeito. Eu sempre te peço isso. É meio desespero mesmo. Não importa. Amanhã, no cemitério, eu vou olhar a natureza e vou achar que é você falando comigo. Ah, por favor. Palhaçada isso! Que eu não sou besta! Quero ver você falando, sorrindo, mesmo que seja sangrando. Preciso da sua imagem. Não posso mais te imaginar. Sabe? O tempo passou e você ficou jovem lá atrás. E hoje quando eu penso em ti me surgem suas espinhas. Dá vontade de rir. Eu cresci, virei mulher, entende? Me sinto quase pedófila, amando você em sonhos passados, quando nem sequer era moço grande, quando ainda usava roupas coloridas e tatuagem. Necrófila, né? Que horror. Não tem nada disso. Eu que tô boba hoje. Eu que tô sempre boba, a princípio. Acho que vou gripar.

Escorre da narina gota seguinte.

ANA – Menino, você foi corajoso. Ou medroso. Você tava drogado? Eu fico puta porque eu nunca vou saber. Nunca. Ai, é foda. Só aumenta o sofrimento. Ou a quantidade de besteira escrita. Você me serve para chorar e para fazer rima. É isso. Só para isso. Que tristeza. Eu queria entender. Um motivo que fosse. Foi por amor? Você se foi muito ferido, isso eu sei. Ela acabou contigo. Mas e o resto? Tanta coisa acontecendo ao mesmo tempo na sua vida. Você pode ter ido porque queimou seu filme, não? Eu não acredito. Você podia ter me ligado. Deveria. Porra, ter pedido ajuda. Eu iria correndo, eu criava asas e te pegava no meio do seu mergulho eu te abraçava. Te abraçaria. Não ia deixar. Não ia. Não pode. Por quê? Eu fico puta, sério. Fico mesmo. Caramba, olha eu aqui sozinha dentro de um quarto no auge da minha juventude sofrendo porque queria estar compartilhando tudo isso com você. Não é justo! E eu nem sei dizer o porquê. Você sabe? Você sabia? Quando se tirou de mim, você sabia o porquê? Olha, o meu nariz tá escorrendo. É coisa de alergia. Eu sempre tive. Não é choro. Antes fosse. Antes fosse. Quando as coisas acabam, a gente começa a inventar maneiras de ter tudo de volta. E você está preso em garrafas. Eu chorei tanto você que tenho vários litros seus lá em casa. Eu devo ter ficado louca. Você me diverte e me tira o sono.

Escorre da vista esquerda uma gota.

ANA – Ih, pronto. Começei a chorar. Quanto tempo eu não fazia isso, meu deus. Ah, agora deixa. Deixa escorrer. Não vou pôr na garrafa não. Vou deixar você correr pelo mundo, evaporar. Sinto sua falta, sabia? Depois sempre passa. Mas eu sinto. Ai, que angústia. Que coisa torta que você foi inventar e onde? Logo em mim! Por quê? Será que você achou que eu saberia lidar com isso, quer dizer, será que você achou que ir embora assim era algo com o qual se pudesse lidar? Ai, eu tô ficando louca. Por sua causa. Mas não te culpo, você entende? É só vontade de apertar, de te abraçar, de sentir o cheiro do seu cabelo, ai… Agora eu não vou parar. Já quis morrer tantas vezes só de chorar. Me faz estar viva. Me faz saber o quanto eu fui capaz de amar. Me faz doer todo esse espaço que era seu e que agora tá gritando, ouve? Eu tô gritando! E quando pensei em te pedir um sinal, sabe? Como sempre fiz? Começou a chover tão depressa e tanto, que eu sei, agora eu sei, é mesmo você. Só pode ser. Ninguém vai me dizer o contrário. Eu não vou deixar. É você. É você. Você querendo voltar ou simplesmente querendo brincar. Brincar de ser chuva. Brincar de me tocar de novo outra vez agora...


E dormirei, enfim.

E mais uma vez eu venho escrever poesia quando na verdade deveria estar resolvendo essa vida. O que fazer? Eu sempre inventarei uma desculpa para fazer com palavras aquilo que não consigo lidar pelas mãos. Eu sou criativo. Sabe? Está chovendo tanto e eu acho que peguei um resfriado. Eu sou diabético, você sabe. É mesmo melhor eu tomar cuidado. Ficar quieto. Brincando de ser escritor e não gente.

Que engraçado. Eu comecei escrevendo isso e a coisa está indo para outro lugar. No entanto, uma certeza eu carrego desde o princípio. Isso vai acabar a qualquer momento. Talvez porque as teclas estão duras. Ou são minhas mãos que sentem frio? Eu deveria ter feito café mas achei melhor fazer um chá. Dois chás. Não se resolve. Vício é uma coisa irredutível.

Vou dormir. Quero ler Deleuze. Preciso preparar meu ensaio. Mentira. Já está preparado. Amanhã o dia me brindará com novos desafios. Eu confesso. Você é o maior deles. Ter que te ver sem saber como me ser. Ter que te tocar sem saber até onde posso te apertar até que altura poderei gemer. Que cafona. Eu não vou gemer. A gente vai se encontrar no meio da rua, a gente nem vai se beijar, a gente vai ficar enrolando ambas as vidas. Tem esse “as” depois do ambas? Tem esse “as” antes das vidas?

Texto bobo, eu sei. Eu falo como se falasse com alguém. Eu falo comigo mesmo, como se em mim houvesse alguém mais. Eu escuto essa música que me entristece sempre e isso me apraz. Percebem? A rima vem vindo sorrateira. Tentando aprisionar o texto. Tentando ser bonita ser bela mas rima não é coisa toda passageira. Quer ficar. Durar. Permanecer.

Hoje eu cheguei à conclusão que preciso registrar os meus textos. Eu preciso ir no cartório e pegar um papel oficial dizendo são meus filhos. Assumir paternidade, sabe? Não há mãe. Nesta vida, só há pai. Só que esse pai, eu preciso dizer, é meio mãe também. Tenho tanto amor, meu filhos. Tudo guardado. Às vezes eu uso. Às vezes eu deixo aqui nesse peito quentinho, abraçável. Podem ficar tranquilos. Ele ainda respira. Talvez mesmo seja por vocês. As músicas tristes não cansam de tocar. Parece rima. Saco. Eu adoro isso. Eu adoro me desautorizar.

Eu sei, texto bobo. A coluna gritou perguntando até que horas vou ficar acordado diante esta máquina? Bom. Se ninguém vem me dar um fim, vou de bom grado, escovarei os dentes. Lembrarei do fio dental. Escovarei os dentes. Tomarei insulina. Sim. Depois vou pegar o Deleuze. Olhar para ele e pensar. Nada disso vale se amanhã eu não puder te beijar no meio da rua.

E dormirei. E por agora, não há mais nada exceto o vento.

quinta-feira, 8 de abril de 2010

ainda não tudo.

diogo
ela dançou repetidas vezes. ela dançou mesmo até o chão. ela comeu macarrão. ela bebeu vinho. ela riu. ela riu. nós rimos. eu comi macarrão. eu bebi vinho. nós comemos chocolate. nós rimos. nós rimos muito. nós, como se diz, nos divertimos. no entanto, aqui estamos: como? eu não sei: estamos vivos. o que fazer? como se faz para se acabar? se se morre de tanto dançar? se se morre de tanto comer ou por tanto esperar ou eu não sei. a gente é medroso? a gente é incapaz de lidar com isso com esta com essa possibilidade do fim? eu não sei. eu não vou. eu fico. ela ficou. nós persistimos. persistimos contra a ida. no entanto, persistimos indo. já indo, vês? os dois se olham e percebem, não ir é desde já ter partido. e por que o sofrimento? ela me olha sorrindo. há sofrimento, eu me pergunto em silêncio? haverá sofrimento? ainda não sei explicar.
dominique

Consume.

Espera mais um instante que eu já vou.

E lavarei as louças restantes
torcerei os panos molhados
Eu vou limpar o banheiro
jogar as garrafas vazias
dentro da lixeira cheia

Mais um instante
que eu vou:

tirar a poeira do quarto
passar um pano no peito
que eu vou recolher os pedaços
de chocolate
de papéis
de livros
de sonhos,
hoje tudo assim misturado sobre o chão da mesa.

Espera um instante
eu vou:

deixar tudo limpo
deixar tudo claro e confortante
que eu vou fechar o chuveiro sem força
trancar as janelas sem dificuldade
que eu vou trancar a porta
com a minha chave
e depois
engolir toda e qualquer possibilidade minha de retorno.

Espera um pouco
quando eu conseguir
te aviso

Por enquanto, porém,
se quiser vir até mim
ou por mim se passar
vem passa fica traz
eu não começei ainda

estou só terminando,

É que consome tempo
Consome tempo, amor
Consome
amor, tempo.

terça-feira, 6 de abril de 2010

ou a constatação da perda.

eu me perdi do caminho. ou foi o caminho que de mim se perdeu? levantou da cama, abriu a porta do quarto. o mesmo quarto de tantas vezes antes daquela. desceu as escadas, as mãos lambendo o corrimão de madeira. pousou os pés no chão da sala, cruzou o espaço vazio em direção à cozinha. pensou como sou óbvio e começou a preparar o café da manhã.

era meio de tarde, é verdade. olhou pela janela mas o relógio tragou sua atenção de volta. à parede. olha. são 15h15. hora improvável. hora sem graça sem nada hora dura sem nada. isso. hora sem nada. agora não toca música, agora não late cachorro, não toca telefone, nada. acontece nada. e ele ali fazendo o café. os pés nos pés do chão. aquele encontro. que também era nada. que dia era? onde estavam todos? a casa povoada é sempre a mais silenciosa. todos falando em escondido.

abriu a gaveta. onde estava? onde está? mexe. mexi. mexeu. move para lá para cá. bate. importa bater a gaveta e fazer do som um grito um apelo. alguém me escuta? alguém o escutou. mas não disse nada. dentro de casa certas coisas funcionam somente em silêncio. em segredo. bateu o armário, bateu nele o dedo. espremido na procura pelo o que mesmo? eu estava procurando o que mesmo? o quê? sentou. sentou-se. na bancada. o café acariciando seu sofrimento. eu não sofro. o café acariciando seu momento. eu não sofro. não sofro. sofro.

saltou da bancada. puxou a garrafa. de vidro. quente. apoiou no mármore frio da pia. espatifou-se só de encontrar. o frio esbarrando no calor incapazes de socializar. metade café por sobre o mármore branco tingindo de preto as horas. metade escorrendo para dentro da pia ele puxou a caneca e a colocou dentro. debaixo. o café caudoloso como rio caindo feito corredeira para dentro da caneca. dentro da caneca. sabia que poderia se cortar. optou por se cortar. para ter certeza de que sabia alguma coisa.

avançou com a caneca escada acima. parou. os pés no degraú. quantas vezes fizera aquela mesma ida? quantas vezes numa mesma investida? quantas? hein? parou. o corpo vertido, virado, mexido, olhando do meio da escada para a sala em silêncio contido. olhou. sabe aquele momento em que tudo vem e nada fica? aquele momento em que nasce inteira uma poesia e pfuh? se acaba? foi ali. no meio da escada. que ela nasceu e se perdeu. que ela flertou com o cara, o rapaz, o homem, o menino, o ente perdido. ela veio e com ela o levou. ficou seu corpo cheirando a café. os olhos brilhando tal qual os pedaços de vidro dentro da caneca. avançou.

lá fora os carros se moviam. algumas coisas aconteciam. quis ouvir um piano. quis ouvir alguém que dissesse mais alto que ele eu não sei. eu não sei. quis chorar. quis correr. quis tanta coisa que eu nem sei agora dizer. não importa. os pés descalço. lá fora os carros buzinando. os sons acontecendo plenos e tudo fazendo o que se faz. tudo seguindo. tudo em família. em movimento. em ruína. atravessou. bateu a porta em silêncio. sentou-se sobre a cama e o dia já então não parecia querer mais ter sentido.

bebeu o café esmaecido num só gole. para dentro também desceram os pedaços de vidro. eram cacos. eram seguros, homeopáticos. alguma aventura possível ao estômago. algum divertimento. alguma qualquer coisa. ih, gente, pensou. vai ser divertido acordar retalhado. dormiu. em breve, vai acordar com fome. e ainda assim, a mesa não estará posta.

ou a constatação da perda

domingo, 4 de abril de 2010

Então me roubo de ti.

A moça sai da cafeteria e é interceptada pelo homem.

ELE - Resolveu sair mais cedo?
ELA - Tenho que fazer uns exames.
ELE - E eu vou ficar sem meu café?
ELA - Mesmo que eu lhe atendesse, você ficaria. O pó acabou.
ELE - Eu queria tanto um café.
ELA - Na padaria sempre tem.
ELE - Eu gosto daqui.
ELA - É. Tem gente que gosta.
ELE - O que você quis dizer?
ELA - Eu quis dizer que tem gente que gosta dessa cafeteria.
ELE - E você não gosta?
ELA - Já gostei. Hoje, especialmente, não.
ELE - O que foi?
ELA - Nada muito inesperado. E você? Alguma surpresa?
ELE - Todos dizendo a mesma coisa.
ELA - Como se não houvesse mais nada diferente acontecendo no mundo.
ELE - Exatamente.
ELA - Nenhum caso sobre nada esquisito?
ELE - Hoje todas as edições estamparam na capa sobre os homens bomba.
ELA - E sobre as mulheres bombas.
ELE - É. As mulheres estão bombando também.
ELA - Não tem muita graça.
ELE - Mas ainda assim, dá para rir.

Riem os dois, sem muito vigor.

ELA - E o que mais?
ELE - Explodiram. E o café acabou.
ELA - A vida não faz sentido algum.
ELE - Não mesmo. A questão é: por que é que não cansamos de buscá-lo?
ELA - Buscar quem?
ELE - O sentido. Por que ainda estamos buscando algum sentido?
ELA - Eu não busco sentido. Busco um emprego. Tem algum para indicar?
ELE - Você foi demitida?
ELA - Ah, sim. Quer dizer. Eu me demiti.
ELE - E por quê? Mas por quê?
ELA - Não sei. Cansei. Sei lá. Foda-se.

Permanecem presos num silêncio tensionado.

ELE - É. Foda-se.
ELA - Foda-se, né?
ELE - É.
ELA - Não faz sentido mesmo. Então que se foda.
ELE - Pois é...
ELA - Pois é o quê?
ELE - Eu ia te chamar para tomar um café.
ELA - Você ia me chamar para te servir um café, é isso?
ELE - Não. Quer dizer. Eu poderia servir o seu. Mas era para bebermos juntos.
ELA - Na mesma xícara?
ELE - Não. Quer dizer. Eu quis dizer...
ELA - Relaxa. Não tem problema. A gente pode beber em xícaras separadas.
ELE - Certo.
ELA - Vamos até a padaria. O café daqui acabou.
ELE - Você já disse. Vamos.

Andam lentos pela calçada rumo à padaria.

ELA - Eu quis dizer que acabou essa história de café aqui. Comigo. Acabou comigo.
ELE - Te fez mal trabalhar aqui?
ELA - Não é isso. É maior. Quero dizer. Acabou. Isso não faz mais parte da minha vida.
ELE - Nada aqui foi importante, é isso?
ELA - É. Exceto você, se é isso o que você estava esperando eu dizer.
ELE - Melhor assim. Nem deu tempo de eu me sentir esquecido.
ELA - O que ficou disso tudo foi o nosso encontro.
ELE - Já é alguma coisa, não?
ELA - Não importa ser.
ELE - Desculpe.
ELA - Desculpe o quê?
ELE - O meu jeito...
ELA - Mas é você. Vai ficar pedindo desculpa por ser você mesmo?
ELE - Às vezes é necessário.
ELA - Não é nada. Pára com isso.
ELE - Vou parar.
ELA - Foda-se...
ELE - O quê?
ELA - Imagina? Se eu for pedir desculpa por cada "foda-se" que eu disser...
ELE - Você vai estar fudida...
ELA - Viu? Eu sou assim. E você desse seu jeito É isso o que nos faz reconhecíveis um ao outro.

Param diante da padaria. Completamente vazia.

ELE - Quer tomar um café comigo?
ELA - Na mesma xícara?
ELE - Não foi isso o que quis dizer...
ELA - Mas foi o que disse.
ELE - Certo. Sim. Então. Quer?
ELA - Quero.
ELE - Boa noite... Boa tarde, quer dizer. Nos vê uma xícara de café?

Olham-se.

ELA - Talvez seja esse o nosso último café.
ELE - O quê?
ELA - Foi o que eu disse.
ELE - Mas por quê?
ELA - Eu não quero mais viver isso aqui.
ELE - Isso aqui, você quer dizer, sou eu?
ELA - Não. Mas sim, ao mesmo tempo. Eu não quero isto aqui. Este lugar.
ELE - Eu não sou um lugar. Eu sou alguém.
ELA - Eu quero partir.
ELE - Para onde?
ELA - Não importa. Quero partir.
ELE - E se eu quiser ir junto...
ELA - Não. Nada disso. Quero ir só.
ELE - E se eu quiser ir junto?...
ELA - Não. Eu quero ir só.
ELE - O que deu em você?
ELA - Deu que eu tô perdida.
ELE - Eu te ajudo.
ELA - Não é questão de ajuda. É questão de sentir isso. Sozinha. De vagar, compreende?
ELE - Não. Sinceramente.
ELA - Tudo bem. Eu também não entendo. Bebe o seu café.
ELE - Ele é nosso.
ELA - Você quem pediu.
ELE - Então bebe você primeiro.
ELA - Não. Bebe você.
ELE - Você. Quero que roube minha namorada.
ELA - Eu não quero uma namorada.
ELE - Leva então ela de mim. Faz com ela o que você quiser.
ELA - Mas eu não quero uma namorada.
ELE - Mas tira ela daqui, por favor.
ELA - De onde?
ELE - Daqui. De mim. Tira ela de mim.
ELA - Pára com isso. O que foi agora?
ELE - Sai de mim por completo. Se for mesmo para sair, que seja por completo.
ELA - Sou eu sua namorada?
ELE - Sim. Eu te peço, então. Sai de mim.
ELA - E se eu quiser ficar?
ELE - Inteira.
ELA - Um pedaço?
ELE - Inteira.
ELA - Então eu me roubo de ti.

Ela bebe o conteúdo da xícara por completo. Apóia a louça sobre o balcão. E o beija a face, partindo veloz.

Porque é difícil esquecer um assalto. Um sequestro. Um roubo. Uma violência.

A partir de personagens propostos por Dominique Arantes.

seu rosto coberto pela madeira oca. apenas.

No dia em que eu a vi pela última vez, seu rosto estava judiado, seu corpo estava frio, no entanto eu persisti, ali preso ao seu lado. Mexi nas suas mãos, opacas, beijei-lhe a testa dura, movi seus cabelos - inertes - fiz-lhe alguma graça. Sim, eu saberia depois. Você não ia mais se mexer. Isso, no entanto, não me impediu o jogo. A gente se conheceu jogando, seria portanto jogando que eu me despediria de você. E tudo isso veio, certo? Eu saí num dado momento e estava tão fria aquela madrugada. Tinha neblina, tinha lágrima cortanto o rosto de um em um segundo. O ar estava se movendo com calma, nem sequer ventava muito, as coisas meio que pareciam ter parado para se despedirem de você. Eu cruzei o pátio que unia as cinco capelas. Naquela noite só o seu corpo era velado. Eu cruzei o pátio. Cabeça baixa, pés andando juntos, corpo unido. Morrendo de medo do que se anunciaria com o sol. Eu cruzei o pátio, fui à cafeteria. Pensei agora quantas pessoas ali já não entraram com o mesmo ritmo, com a mesma energia. Pedi um café, ele veio quente e apertando o copo eu me senti mais tranquilo. Eu me achei menos demente, ora, aquilo era dor doendo sem vergonha. Dor doendo tudo, não tinha escolha. Bebi todo o café e voltei a caminhada até restar mais outra vez próximo a você.

Eis que o ritual da despedida começa. Mais amigos, mais parentes, mais desconhecidos lhe cruzam o olhar. Você muda, sem falar nada, sem piscar, sem tremer, apática. Eu te vigiei a noite inteira, você não moveu um cílio. Esteve o tempo inteiro sonolenta dentro de sua eternidade forjada. Certo. Começou o choro da mãe, do pai, do irmão, dos amigos. Os ânimos se exaltaram e não faltou discurso, nem sequer ódio meu quando me pediram para não chorar tanto. Como não? Era a minha única força. Era o que restava. Eu segui subindo o morro conservando na mente seu rosto que fazia pouco tinha sido coberto pela tampa de madeira oca. Você ali dentro, provavelmente batendo cabeça e se espremendo e já lhe faltando ar, quando desceram seu corpo, tive a sensação de que eu estava ali dentro, algo me apertando e esmagando e eu sem saber para onde ir eu querendo gritar querendo morrer eu querendo sumir eu querendo sofrer... Meu deus, você se foi tão concreta. Lançada para baixo da terra. Quem me dera tivesse sido queimada, feito fosse bruxa.

Você ficou tão concreta. Tão concreta. Foi seu fim, mas que começo fez você em mim depois de partir? Será que a saudade que eu sinto é o que te impede realmente de ir? Não importa. Não vou nos filosofar. Não há questão, há certezas. Hoje você sobrevive em mim quer você queira ou não. E eu acredito que deves querer. Sabe? Você partiu ficando. Você morreu irradiando. Tudo usado especialmente para uma coisa e outra, ao mesmo tempo. Você foi e é. Você não ia e vai. Você é confusão eterna porque eu não sei se você está aqui ou se o que sinto é justamente porque você não está aqui jamais. Entende? Eu escrevo por você, sobre você, sobre mim, por mim e ainda assim, tudo permanece sem saber. Tudo permanece mistério, como estivesse vivo, como tudo estivesse pulsante. Você inaugurou o absurdo. E hoje, danço esta dúvida para não ficar rígido, burro, certo demais, medroso. Danço esse medo para aterrorizar meus monstros. Que coisa...

Ao mesmo tempo em que eu estou certo de que o fim vem mesmo com a morte. Como aceitar que isso seu aqui comigo hoje é você, depois de ida? Isso é memória? Memória é a liberdade do passado. E quem foi que disse que hoje juntos não estamos mexendo em meu presente, em meu futuro, em nosso passado? Não há controle. O fim é apenas um ponto de vista. Será mesmo?

sexta-feira, 2 de abril de 2010

Break,

A luz acabou. Concreta. Não é poesia. Eu paguei a conta, mas nessa época de chuva pode acontecer isso que agora nos acomete: a escuridão. Acabou a luz, acabou o banho quente, acabou televisão, acabou computador. Meu deus, acabou computador. A cafeteira desligou. Não há luz dentro dessa casa e as estrelas que não estavam no céu, mas enclausuradas dentro dos apartamentos vizinhos, bem, elas também se apagaram. O que vamos fazer, você me pergunta, eu acho, nem dizendo, nem pelo rosto. Eu não te vejo, eu te escuto por dentro de casa perambulando. O que vamos fazer, eu me pergunto em silêncio e você me comove em direção à parede. Está escuro. Acabou a luz. Ainda bem. Vem aqui.

Parede, Cotovelo, Mão, Pele, Pelos, Lábios, Sede, Sede, Calma, Espera, É o dente, A Boca, As Bocas, A Pressão, A Força, O Ímpeto, Eu Te Surpreendo, Eu Em Mim Te Recebo, Espreme, Esforço, Escoa, Suor, Rosto, Parede, Batida, Roupa, Unha, Arrepio, Descontrole, Pausa, Nervosismo, Corre Sangue, Escorre Um Rio, E Mais Outro, Excita, Não, Sim, Olha, Talvez, Chuva, Respingo, Beijo, Eu Te Beijo, Eu Te Mordo, Eu Te Tenho, Deixo, Abandono, Volto, Circulo, Dedos, Desenho, Pelos, Pele, Silêncio, Ofega, Luz, Voltou, No Entanto, Nu Estamos, Olhos Fechados, Segue, Continua, Vamos Amar A Escuridão, Fica, Não Veja, Permanecemos, Deitados Sobre A Mesa, Friso, Quente, Calor, Ainda Os Dentes, Corre, Enerva, Segura, Espera, Junta, Comunhão, Choque, Imensidão, Simultaneidade, Delírio, Arrepio Sem Mais Vírgulas Vamos Escorrer Juntos O Destino: fim.

Um banho frio, você me diz.
Um banho frio, eu consinto.
Toalha, eu te seco.
Outro beijo.
A gente riu rapidinho.
Café quente, certo?
A luz já voltou.
Um apaga a luz.
Dedo acende a cafeteira.
Vamos ficar sentados ao chão da cozinha,
enquanto a cafeteira faz canção para passar no tempo
o nosso encontro.
        

quinta-feira, 1 de abril de 2010

PretextoPerder

O nosso fim quando vier nem vai doer.

A cada dia quando me despeço de ti
ou quando te vejo de mim partir, bom
eu sei tu sabes nós sabemos
que se trata ali naquele instante
de mais um fim.

A cada encontro nos damos de volta uma finitude.

Será que vai doer menos? Ou mais?
Nos acostumaremos em dar adeus
e por isso mesmo sempre precisaremos
nos ter para se despedir
e conseguir ir adiante?

Como quem não perdeu nada, sim?

Porque perder é se dar de novo ao jogo do encontro.
Nos perdemos eu acho ou sinto eu sei
para termos que de novo e sempre agora outra vez
nos fazer encontrar.

Pequenos infantes,
nos perdemos como em jogos de se esconder
e achar
nós perdemos para em nós mesmos
fazermos nascer o prazer
incontido,
do se tocar
do fazer estar contigo
do te colar em posição indescritível
e fazer assim
a vida parecer jogo
mesmo sabendo que
depois de tanto suor
haverá de acabar.

Quem dera a vida funcionasse em versos, não?

o fim é vírgula. tropeço,

Ele coloca a caneca com o café por sobre a mesa.
Vez ou outra a retira. Para beber.
A caneca ainda está cheia, no entanto,
ele sempre longe de você.

Ele se dispõe a tentar entender.
Vez ou outra nada compreende. Mas é perceber
que o caminho é feito de ruelas esquinas e longas avenidas
para que as coisas se aceitem como são.

Ele bebe o café.
Ele pensa sua poesia.
Ele não fala nada.

É neste momento que acontece a sua vida.
Sua vida ali daquele jeito naquele batimento está andando.
Bebe o café, faz sua poesia
junto a ti o tempo vai passando
a saudade dos entes mortos se refazendo
indo e voltando
rindo e pisando
para não te deixar esquecer

Que o fim, no final das contas,
pode ser só mais uma coisa.

___

Mas não.
Vamos contar uma história de amor.
Ela começou. Um dia ela terminou.

___

Não.
Vamos tentar falar sobre a morte.
Você nasce e começa a morrer. A morte é a sinceridade de toda democracia.
É aquilo que um político pode prometer e que, sim, conseguirá cumprir.
Nascemos morrendo.
Mas o que isso propriamente tem a ver com finitude?
Tem a ver com fim. Tem a ver?

___

Talvez.
O café acabará em breve. Primeiro na caneca. Ele bebo mais um pouco.
Ainda há bastante. E está quente. E o calor que se deitou por dentro aqui de mim
Já se dissipou. Como pode. Isso não é tempo. É natural das coisas. É movimento.
Eu dizia… O café da caneca em breve acabará. O café da cafeteira também.
Depois o pó de café. E que eu pare por aí:
continuarei vivo.

o fim não coincide com a morte.

o fim é vírgula. tropeço.

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Eu não queria já escrever qualquer coisa. Mas é preciso. É preciso? Olha, essa confusão por estar vivo é incrível. É incrível? Hoje eu tirei o dia para duvidar de mim. Para ver até onde consigo ir. Hoje eu sou fluxo. Querendo abraçar a multidão. Ora, se agora sinto querer chorar. Que fazer? Eu vou ser rio, não posso evitar. Depois acaba. O fim é aquilo que assegura o continuar da estrada. Ou você acha que os suicidas se permitem ir porque entendem que é fim? Não. Eles partem porque não conseguem visualizar fim possível. E morrer não encerra nada. Ficaram todas as duas cravadas em mim feito persistência. Não se concluíram. Hoje eu as olho – aqui na minha cabeça – e tenho medo de as assustar. Porque eu mudei já tanto e no entanto, elas continuam com aquele sorriso de criança querendo ser grande. Ai, eu não queria chorar. Ou queria?

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O menino querendo ser homem – Do que eu quero falar?
A mulher querendo ser menina – É. É simples. O que está gritando dentro de você?
O menino querendo ser – Não tem nada gritando dentro de mim.
A mulher querendo ser – Então vai viver.
O menino querendo – Espera… Eu tô vivendo. Mas nada grita. Tem que ser grito?
A mulher querendo – Ou algo que seja tão forte e capaz de despedaçar.
O menino – O silêncio me destrói. Eu já te falei isso. Você deveria saber.
A mulher – Te destrói como? Eu esqueci. Como?
O menino – Não me deixa dormir. Domina meus pensamentos. Eu não sei…
A mulher – Então seja concreto. Qual silêncio agora fala aí dentro de você?
O menino – O medo.
A mulher – Medo todo mundo tem. Seja específico. Você quer mesmo ser um artista?
O menino – Eu sou um artista.
A mulher – Então tá…
O menino – Não deboche. A questão é o como.
A mulher – Nada disso. Anda. Fala do silêncio.
O menino – Silêncio não fala.
A mulher – Então fala de como se movimenta.
O menino – Como você sabe que ele se mexe?
A mulher – Eu tem algumas dezenas de anos a mais que você. Já me movi de patins, patinete, mobilete, carroça, trem, barco, fusca, metrô, bondinho, moto, bicicleta, pedalinho, ônibus e também sozinha e também pelo silêncio.
O menino – Eu nunca andei num fusca.
A mulher – As coisas saem de moda. Acabam. C’est fini.
O menino – Espera.
A mulher – Ele falou?
O menino – Não. Foi você. Você disse o meu medo.
A mulher – Sair de moda?
O menino – Não. Acabar. Ser. E no dia seguinte. Ser fim. Não ser.
A mulher – Muita coisa. Fecha um pouco.
O menino – Ser fim.
A mulher – Deprê…
O menino – Não. Não quer dizer morte, que acabou, isso ou aquilo… Quer dizer… Como dizer…
A mulher – Você está confuso. Quer parar?
O menino – Não. Eu continuo. Eu continuo porque eu sei que numa hora qualquer isso aqui, entre eu e você, o nosso diálogo, o nosso toque, a nossa escuta, mesmo o nosso cigarro… Eu continuo porque tudo isso, numa hora como esta agora, acabará. Como se diz?
A mulher – Fim.
O menino – Não. Não gosto de ponto final.
A mulher – Então fica com talvez.
O menino – Não. É certo. Concreto. É que as coisas vão… Sem fim, mas já se indo…
A mulher – Agora você tá me confundindo.
O menino – Fique atenta a isso. À confusão. Daqui a pouco ela vai acabar. E é disso que eu falo. Dessa sensação. Do ir que chega. Do futuro que se faz presente e logo passado. Eu não falo de tempo. Eu falo do inevitável. Do movimento. Das coisas que se consomem e somem deixando em nós só seu grito, que já nem mais é grito, é apenas eco…
A mulher – Você tá virando um poetinha, sabia?
O menino – Sim, eu sabia. Mas vai passar, não se preocupe.
A mulher – E ainda teima em me dizer que não se trata da morte.
O menino – Não se trata. Olhe você.
A mulher – Que tem eu?
O menino – Está de pé. Viva. Velha. Consumida. Eu te pergunto: o que hoje em você se concluiu? Ou: tudo o que você carrega consigo é contínuo, as coisas em você não já se foram, já não pontuaram em você seu fim de partida?
A mulher – Você está confuso.
O menino – Vou dormir.
A mulher – Amanhã, quando acordar, me faz um café. E me acorde. A gente continua.
O menino querendo – A gente continua.
A mulher querendo – Eu não vou conseguir dormir com facilidade.
O menino querendo ser – Eu vou demorar a dormir.
A mulher querendo ser – Demore até conseguir.
O menino querendo ser homem – Sim. Uma hora há de acabar. Nem que seja pelo cansaço.
A mulher querendo ser menina – Eu tô exausta. Até brevíssimo.

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Na metafísica, finitude é uma característica dos entes que modificam-se ou têm limites. Onde fica a metafísica? Quero conversar com ela.

___