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quarta-feira, 21 de fevereiro de 2018

Apenas quando necessário

Permitiríamos, então, que algo falasse.

Nem antes, nem muito depois.

Seria num instante breve
num momento intempestivo
em que a honestidade
fosse a medida exata
para os seus gestos.

Observaríamos, somente.

Sem nada dizer ou condenar.

Ficaríamos assim como estamos.

Quase inerte
acompanhando a vertigem
de uma tentativa de confissão
que provavelmente não viria
que, é provável,
não virá.

Seria preciso outra sequência de noites.
Outro amanhecer e outros mais.
Seria preciso desistir de você
para que algo saltasse
comovido
de suas entranhas.

Algo como o necessário.

O vital, exclusivo extrato
de um instante hoje soterrado.

Algo saltaria de ti
comovido, repetimos entre nós,
ele precisa nos dar algo
comovido.

Você nos olha na vertigem da sua insuficiência.

Você não serve para nada
nem ninguém
Você sabe disso
você é feito da destruição também.

Não durma,
um de nós te provoca.

Não durma agora,
não durma.

Você chora.

O que a gente deseja é apenas essa sua confissão.

Não é pedir muito, é?
Seria?

Você não responde.

Você hoje não existe assim tão possível.

O seu cansaço, um de nós diz,
o seu cansaço é o seu respiro.

(Talvez pudesse parar de respirar).

Você pensa
e é possível escutar seus sonhos.

Algo a me dizer?
Algo para mim?

Você grita.

Nós, puro silêncio.

A você?

Não.
Nada.
Nada assim tão determinante.

Algo?

Você grita.

Nós, nem movimento.

Quando tiveres algo necessário a ser dito
a ser feito
Você abre a boca e confia.

Por agora, no entanto, tudo aquilo que te faz existir
é só essa sua profunda agonia mesquinha.

sábado, 17 de fevereiro de 2018

um tornado fiapo possível


NOVO – Você está brava comigo?
ANTIGA – Estou cansada. De tudo. Só isso. Tudo.
NOVO – Talvez a gente pudesse sair um dia desses...
ANTIGA – Para quê?
NOVO – Dançar. Se divertir. Descontrair.
ANTIGA – Não sei dançar.
NOVO – Também não.
ANTIGA – Sei beber.
NOVO – Viu? Você pode me ensinar. Sou meio fraco nisso.
ANTIGA – Beber. Tomar um negocinho.
NOVO – Droga? Para quê?
ANTIGA – Para sentir que eu sou feliz. Ao menos um pouco.

terça-feira, 13 de fevereiro de 2018

Pouco. Muito. Indiferente.

Haveria tanto a se preocupar.
Nem dizemos mais "culpa".
O que nos resta hoje é tudo responsabilidade.

Tanto a ser feito
que o já realizado desmancha
como se nada tivesse sido.

Nada foi pouco até aqui
mas o adiante é tão muito
que tudo soa pequeno e impossível.

Por isso o cansaço extremo
a impaciência como ordem dos dias
por isso o isto o aquilo e o ademais.

Por muito pouco tudo morreria
por quase nada uma explosão
catalisaria a desistência nos outros e nas coisas todas.

Haveria alguma indiferença
que me permitisse continuar
sem essa dívida?

De culpa à responsabilidade
de responsabilidade ao cansaço
do cansaço rumo aonde?

terça-feira, 6 de fevereiro de 2018

moendo-se

Há alguma perturbação na minha alma. Só pode ser lá, nela. Só pode ser. Tento encontrar de onde viria esse desassossego e nada. Procuro mesmo. Eu me vasculho. Deixo o “eu” de fora e remexo tudo, corpo, memória, os objetos que trago comigo em minha mochila nova e nada. Simplesmente nada.

Alma se toca? Alma tem corpo? Não encontro. Só pode estar nela essa impaciência e essa irritação que segue moendo-me no correr dos dias.


Eu não vou ficar louco. Ou normal. Eu não tenho como seguir a ordem do dia. Sou todo desordenado.

segunda-feira, 5 de fevereiro de 2018

Ouve comigo

Essa música
rude, talvez
Essa canção
mole, é provável
Ouve comigo
eu te peço

Isso que toca é o peso do seu sorriso
afundando meu coração

Ouve
Ouve só
comigo
Ouve o que acontece
quando assim desavisado
a gente se deixa levar
pelo jeito do outro
que nem sequer
estava andando lado a lado

E agora está
agora está

Ouve
você ouve?

Está tocando.